Pausa à poética

Neste virtual e quase infinito espaço, um anônimo e singular poeta pretende expressar suas desimportantes impressões diárias e perturbadoras acerca dos mundos reais e das atitudes, não raras vezes, banais dos animais rotulados de racionais.

Pausa à poética

Neste virtual e quase infinito espaço, um anônimo e singular poeta pretende expressar suas desimportantes impressões diárias e perturbadoras acerca dos mundos reais e das atitudes, não raras vezes, banais dos animais rotulados de racionais.
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Terra Blog

Arquivo de: Janeiro 2008, 28

28.01.08

Nunca

categorias: paixão
Nunca ninguém me deixou com água
na boca
e a goela,
ressequida, quase oca.

Nunca uma moça
tão bela
quanto louca
atormentou tanto minh'alma
a esta altura da vida, calma.

Nunca uma linha tão tênue
dissipou gigantescas labaredas.
Sombreadas, as veredas
da paixão, pela consciência pudica.

Nunca, de uma hora prá outra,
uma conversa despretensiosa
transformou-se numa relação maravilhosa,
quase colorida.

Nunca em tão exíguo interstício
de tempo
o feitiço removeu o terreno
que existia sob meus pés.

Nunca em questão de horas
contínuas
o tesão enrolou-me minha língua
e deixou-me em cólicas uma mulher.

Nunca na história dos homens
o quase se fez eternidade
e o excesso de juízo, a brevidade
de algo que se me apresentou eterno.

Nunca exsurgiu tão extremo
o litígio
entre o pecado e o pudor
e o prazer, coitado, meu senhor!
Sufocado, por ambos, a ver navios.

Nunca na minha vida,
de mão beijada, a acaso
trouxe-me relação tão intensa!

Não fosse o capricho, propensa
à amizade, feito arco-íris, colorida;
Nunca, Deus, nadei tanto prá me afogar no raso
do quase!
Pasmem...


Cid Rodrigues Rubelita

Diante do amor

categorias: amor

Diante dele, dizia o imortal poeta Dante:
"O amor me move: só por ele eu falo".

Pois comigo é diferente:
ora, o amor me paralisa;
sinto um nó na goela,
perco a fala,
a noção e o norte.

Ora, me enche de asas,
me regozija;
viajo entre estrelas,
de carona com a sorte.
Ajo feito um demente,

consoante as regras postas
e os costumes vigentes
e impostos pela habitual convenção.

Diante do amor, a mim me importa
o silêncio, a lava ardente
que inunda, derrete e rasa meu coração.

Cid Rodrigues Rubelita

Amante incondicional

categorias: amor
Com este alarido em harmonia
se eu fosse teu bem me libertaria

dos afazeres do dia-a-dia
só para me prender sem alforria

nos prazeres deste amor
- ou seria paixão, despudor -

até quase morrer feito beija-flor
afogado na concupiscência que extasia.

Afinal, aquém do mérito da filosofia
o que é a vida, analisa:

senão um punhado de dias
imprevisíveis e enxarcados de suor

para se arcar com os ares de doutor
e o conceito de sucesso que nos dita

esta sociedade decrépita e estúpida
- e a hipocrisia que nos veda a vida lúdica -

Portanto, se eu fosse teu bem me jogaria,
cego, no teu colo de amante incondicional

e causaria incomensurável dano moral
à enfadonha e insossa monotonia.


Cid Rodrigues Rubelita

Ano novo, nova vida

categorias: amor
Faz deste novo ano que se inicia
O primeiro de tua vida.
Aprende a andar de mãos dadas,
Aprende a usufruir as horas vagas,
Aprende a confiar em ti e em teus amigos,
Aprende a perdoar teus inimigos,
Aprende a conviver com as diferenças,
Aprende a combater as indiferenças.
Pois, comparada à infinitude,
A longeva vida é mera infância.

Recebe este novel ano como uma dádiva
E vive-o como se fosse
O derradeiro de tua vida.
Acha mais tempo para a família.
Equilibra-te na humildade,
Se tu percorres íngremes trilhas.
Alarga, no conhecimento,
Os teus (e dos outros) horizontes.
Escancara o sorriso incontinenti
No jovial semblante.
Já que, na essência da humanidade,
Somente o bem tem significância.

Neste ano próximo vindouro
Festeja, trabalha, ama e, de novo,
Tem as atitudes que te fazem feliz
Sem que no semelhante abram cicatriz.

Todavia, vive com intensidade
Os interstícios entre os afazeres;
Desprende da matéria a tua realidade,
No sentimento é que afloram os prazeres;
Desconecta teus sonhos da virtualidade,
Pois é na carne, corpo e alma das pessoas
Que pulsa, avoluma e explode a felicidade.

Feito isso, no balanço do ano doravante,
A marca da tua presença será radiante.
Já que és, aos olhos da humanidade,
Um ser muito especial.

Agora, se já praticas estas ações mínimas,
Revigora-te, em Deus, no próspero ano e ensina,
Pois que és, na verdade,
Um Sábio revestido de massa corporal.

Cid Rodrigues Rubelita

Essencialidade

Excluídas as exigências convencionais,
elididas as diferenças sociais,
suprimidas as indiferenças raciais
e vencidas as filosofias dos intelectuais,

os humanos somos animais cotidianamente

carentes apenas de contato, de olfato, de tato,
e não de sapatos, aparatos e contratos;

carentes de calor, de amor, de despudor,
e não de avião, promoção e título de doutor;

carentes de carícia, de malícia, de preguiça,
e não de influência, fluência e contas na Suiça;

carentes de paixão, de emoção, de tentação,
e não de guerra, terras e grades de proteção;

carentes de relacionamento, de cumprimento, de sentimento,
e não de isolamento, armamento e muros de confinamento,

carentes de beijo, de desejo, de gestos benfasejos,
e não de guerrilha, quadrilha e ilhas de desterro;

carentes de paz, de cantigas, de poesia,
e não de rolex, duplex, veleiros carcomidos pela maresia;

e porque ninguém é de ferro nem de água
nós somos carecedores desmedidos
de dengo, chamego, cafuné e sexo;

mas para tal, é urgente que se faça uma claúsula
que declare a permissividade de viver despido;
chega de relógios, gravata, anágua, saia, terno.

Cid Rodrigues Rubelita